Quando você lê que 56% das crianças brasileiras com menos de 1 ano bebem Coca-Cola começa a ter certeza de que há algo errado. Indo mais longe e sabendo que a maior parte dessas crianças passa mais tempo em frente à televisão do que na escola, você passa da constatação à preocupação.
Vamos ao que interessa. Empresas têm uma missão, não têm? Estados também. Empresas não devem, parece claro, agir com a intenção de prejudicar quem utiliza seus produtos ou serviços. Duvido que haja alguma empresa que ostente essa missão, a de causar doenças ou idiotia com seus produtos. No entanto, produtos como refrigerantes, têm essa propriedade, a de causar males físicos. Pode-se argumentar que não é esse o objetivo fundamental de um produto como o refrigerante, mas o fato é que o refrigerante não serve para quase mais nada além de entupir aquele que o bebe de açúcar. Qualquer pessoa sabe, ou deveria saber, que ingerir refrigerantes não mata a sede e não nutre. No entanto, a maior parte de nós não sabe ou não pensa sobre isso. Ou não quer pensar sobre o assunto, pois que há gente que tem a crença de que não pensando não terá problemas.
Quando o sabor é tudo
Produtos para crianças deveriam trazer benefícios para a mente e o corpo, parece claro. No entanto, a coisa não funciona desse jeito. Embora haja exceções, tudo nos leva a crer que boa parte dos produtos vendidos por grandes empresas e que são destinados ao público infantil não trazem benefícios para a mente e o corpo, muito pelo contrário. No entanto, são vendidos como se fizessem. E observe o que costuma ocorrer em redes de fast-food nas quais, em suas informações nutricionais, trocam a palavra “açúcar” por “carboidrato”, buscando enganar não exatamente crianças, mas os adultos.
Qual o atrativo desses produtos, afinal? Eles trazem justamente a promessa de satisfazer sede e fome com sabor. E é o sabor a chave. É essa a sedução e é esse o motivo pelo qual as pessoas consomem refrigerantes e comidas que não alimentam. Consomem muito, queremos dizer, muito além do que deveriam para ter saúde. Há as justificativas racionalistas que acabam influenciando na escolha, mais como racionalizações, é claro, do que como promotoras de raciocínio, mas certamente não representam a motivação principal.
A voracidade pelo lucro é prejudicial à saúde
O fato é que, além de ouvir dizer na publicidade e ler, em muitos rótulos, que tal produto tem tais e tais propriedades ou não contém este ou aquele componente (geralmente com essas informações não verdadeiras ou apenas parcialmente verdadeiras em destaque), há o sabor, composto, na maior parte das vezes, pelos mesmos elementos (adoçantes, acidulantes e outros que realçam determinados sabores atrativos), que promovem um paladar padrão, atraente para a maior parte das pessoas, principalmente crianças, usualmente por ser predominantemente doce ou agridoce. O paladar vai se doutrinando e aprendendo a apenas aceitar alimentos e bebidas com sabores atraentes e muito semelhantes – que geralmente não alimentam, diga-se. Em pouco tempo, se tornará muito difícil para qualquer pessoa consumir produtos alimentícios que não estiverem alinhados com o paladar atrativo e padronizado que seduz o consumidor e satisfaz a voracidade por lucros das empresas.
Mas, veja, dizíamos, lá em cima, que as empresas têm uma missão. Isso parece ser certo, mas parece mais certo ainda que algumas (não serão muitas?) não levam a sério a missão que professam como oficial, o que nos leva a crer que há uma outra missão, não claramente formulada, que diz respeito ao lucro. “Lucrar, acima de tudo, ainda que prejudicando o consumidor”, talvez possa ser definida desse modo essa missão. E essa missão é muito mais importante e efetiva, pois, além de não ser dita, é aquilo que integra e irmana o sistema de consumo das empresas – não de todas, é claro, mas é possível dizer que a maior parte. Talvez seja possível dizer que é o que “dá liga” entre elas.
Mais semelhanças do que diversidade
No fundo, toda empresa é mais igual do que diferente de outra ou outras. As diversidades ficam mais por conta de produtos fictícios de marketing do que da realidade. Como sugere Joel Bakan, que escreveu um livro e dirigiu um filme sobre a “Corporação”, há muito mais semelhanças do que diferenças entre as corporações, por isso ele trata “da” Corporação nas suas obras. Não de uma, mas de todas.
Estados também têm missões e é evidente que estas não podem ser formuladas como “Olhar para o outro lado e não ver o que as corporações estão fazendo”. Na prática, como no caso dos alimentos transgênicos, os Estados de inúmeros países têm feito a sua parte e restringido ou mesmo proibido o uso de sementes transgênicas. O Estado brasileiro, no entanto, não está nesse rol. E, se um Estado tem uma missão, esta deve ser promover e proteger a saúde e o bem-estar dos seus cidadãos. Ou não?
Alegar a preservação da autonomia do consumidor é cinismo
O Estado deve, prioritariamente, orientar no sentido do que é bom e não é bom comer e/ou beber. No entanto, em nome de um argumento eivado de cinismo, como a defesa da autonomia do consumidor, não apenas alguns agentes do Estado como muitos cidadãos aceitam e mesmo justificam a má conduta de inúmeros empresários do ramo da alimentação que não alimenta, ou seja, da indústria de guloseimas, de fast food e, pior, de junky food.
Ah, sim, falamos até aqui da ingestão de comidas “porcaria”, predominantemente doces e/ou agridoces, que são muitas vezes vendidas como saudáveis e “fonte de vitaminas”. Mas, há, ainda, que se mencionar o alimento do espírito, a cultura e suas manifestações, principalmente no que diz respeito ao jornalismo e ao entretenimento.
A Televisão oferece alimentos ultraprocessados para o espírito
Observando a programação televisiva acessível à maior parte da população brasileira, depreende-se que estamos falando de algo nada instrutivo, nada esclarecedor e nada formador de um caráter cidadão. Se um adulto passar boa parte de seu dia assistindo à televisão e, principalmente, se fizer disso um hábito, terá provavelmente sérios prejuízos físicos e mentais.
A mídia “televisão” estimula a passividade devido à sua natureza de preencher visão e audição, bem como emoção, com elementos que não incentivam a participação, o diálogo ou a reflexão. Muito pelo contrário. Passar mais tempo diante de uma tela do que estudando pode ser sinal de que a criança não terá sua participação no mundo estimulada, muito menos será incentivada a pensar ou a interagir com outras pessoas, crianças ou adultos. Pode significar que os conhecimentos que seriam úteis para toda a sua vida por lhe fornecer independência e autonomia, não serão transmitidos. Em vez disso, ela será levada a mergulhar em uma fantasia de autoria de outrem, pré-moldada e pré-formulada com o objetivo de prender a atenção por ser atrativa: simbolicamente doce ou agridoce, como os alimentos processados e ultraprocessados.
Todos somos responsáveis, no fim das contas
Empresas têm missões que, certamente, devem ter compromissos éticos e algumas os têm, é óbvio. No entanto, tanto nessa área como na alimentícia, o discurso da Ética tem sido mais um discurso fechado em si, nitidamente para inglês ver, do que a representação de uma prática ou de, pelo menos, uma intenção de cunho ético.
Cá entre nós, um país no qual mais de metade das crianças com menos de um ano ingerem refrigerantes e onde essas mesmas crianças acabarão sendo levadas a passar mais tempo diante de uma tela na qual serão tratadas como criaturas passivas e não terão incentivo a pensar, é um país condenado à desnutrição física e espiritual. E isso é responsabilidade de diversas empresas e de diversos agentes do Estado. Mas, não apenas. É sua responsabilidade também. Afinal, é o seu corpo e o seu espírito que estão em risco... e também o corpo e o espírito de seu filho e/ou filha.
Luiz Geremias


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